Tag: Arte

  • Pisos: concreto e arte

    Apesar das inovações em peso e resistência, concreto é o que é – duro e barato. Dificilmente se vê alguma aplicação diferente. A maioria das inovações vem no campo da aplicação deste produto.

    Pensando nisso, a empresa Transparent House Studio apresentou uma interessante alternativa para seu piso de concreto básico.

    “Concrete Art” surge através de uma nova tecnologia desenvolvida pela Transparent House Studio.
    Contrastando com a frieza do concreto,pode-se aplicar qualquer peça de design gráfico durante a aplicação do concreto ou quando este já estiver seco.

     

  • Declaração para a Instituição Oficial da Profissão do Designer de Iluminação de Arquitetura

    Em 27 de outubro de 2007, na cidade de Londres, Inglaterra, na sessão plenária da PLDC – The Professional Lighting Design Convention – Foi aprovada e proclamada a “Declaração para a Instituição Oficial da Profissão do Designer de Iluminação de Arquitetura”

    O texto em língua portuguesa encontra-se abaixo e na coletância de arquivos do Laboratório de Iluminação, endereço http://www.iar.unicamp.br/lab/luz/ld/Diversos/Declaracao_portugues_01.pdf
    O endereço do site da PLDA – Professional Lighting Designers’ Association é o http://www.pld-a.org/31.0.html

    Declaração para a Instituição Oficial da Profissão do Designer de Iluminação de Arquitectura.

    Reconhecida e declarada em Sessão de Plenário da Convenção de Design de Iluminação Profissional (PLDC), em Londres, Reino Unido, a 27 de Outubro de 2007. A 27 de Outubro de 2007, a sessão de plenário da PLDC (a Convenção de Design de Iluminação Profissional) reconheceu e anunciou a Declaração para a Instituição Oficial da Profissão do Designer de Iluminação de Arquitetura, conteúdo que consta no seguinte texto. No seguimento deste marco histórico, a sessão de plenário apela a todas as associações, organizações e publicações, directa e indirectamente relacionadas com a Iluminação, para que divulguem o texto da Declaração, e para que a publicitem junto de todas as instituições educativas, escolas dos diversos ramos do Design e dos cursos de Arquitetura e Engenharia, bem como junto dos respectivos membros dessas associações e instituições.

    Prefacio
    Reconhecido que está, que são as qualidades especificas, o conhecimento e o saber, a perícia e a experiencia que constituem a instituição da profissão; Visto que o conhecimento sobre Luz e Iluminação, sobre as suas ferramentas, o seu controlo e manipulação se desenvolveu de forma complexa e diversificada; Reconhecido que está, que o impacto que a Luz tem nos seres humanos é do elementar senso comum, e que tem hoje bem mais ramificações para alem da área visual e perceptiva, complexa esta à partida; Visto que as responsabilidades daqueles que lidam com o Design e a especificação de Iluminação para o ambiente humano se desenvolveram de forma muito significativa, Assim e consequentemente, a Sessão de Plenário da Convenção de Design de Iluminação Profissional anuncia que a Declaração para a Instituição Oficial da Profissão do Designer de Iluminação de Arquitetura é um facto a ser oficializado por cada um dos Governos Nacionais e por todas as instituições internacionais que lidem com o reconhecimento de profissões e actividades independentes.

    Artigo 1
    O Design de Iluminação é a arte e ciência de Iluminar o ambiente humano. Designers de Iluminação são aqueles profissionais que têm a capacidade de aplicar esta arte e ciência a projectos, ajudando ao sucesso destes.

    Artigo 2
    O Design de Iluminação é uma profissão e uma disciplina distinta de todas as outras da área da Arquitectura, do Design de Interiores e de Equipamento, do Paisagismo, do Urbanismo bem como da Engenharia Electrotécnica.

    Artigo 3
    Os Designers de Iluminação são parte integrante do desenvolvimento do projecto de Arquitectura. Estes cooperam coordenando a sua actividade profissional junto das outras especialidades relevantes no mesmo projecto, actuando como garante do seu sucesso integral.

    Artigo 4
    Os Designers de Iluminação são responsáveis pelo design de uma parte do ambiente humano e assim responsáveis pela forma como esse mesmo design é apresentado e pelas suas consequências sobre o design de terceiros. São responsáveis pelo bem-estar das pessoas que usufruem destes espaços submetidos ao processo de design, pelo garante da forma adequada como se deverão sentir nestes espaços, pela eficácia dos utilizadores em levar a cabo tarefas de elevada exigência visual, bem como pela garantia de segurança, todas estas dentro dos limites de influencia que uma Iluminação submetida ao processo de design oferece, ao espaço e aos seus usuários, ou aos objectos iluminados e os seus utilizadores.

    Artigo 5
    Os Designers de Iluminação são tidos com responsáveis pela sustentabilidade do seu projecto de design.

    Artigo 6
    Os Designers de Iluminação não são parte da cadeia de fornecedores de um projecto de arquitectura, no entanto, estes tem uma forte ligação a este processo. Os Designers de Iluminação cooperam com todos os intervenientes desta cadeia, desde fabricantes, empreiteiros, representantes oficiais e instaladores, dentro dos limites do seu código de ética, com o objectivo de fazer beneficiar o utilizador final, o cliente e o projecto na sua totalidade.

    Artigo 7
    O Design de Iluminação tem todas as qualificações exigidas para o seu reconhecimento oficial. Este é leccionado a nível académico, é composto por massa critica de profissionais que o praticam, é sujeito a códigos de deontologia bem como a uma pratica profissional efectiva.

     

  • DESTRUIÇÃO DA RESTAURAÇÃO.

    Versão remodelada e amplada do texto original.

     

    Restaurar? Ofício divino nas mãos de pouquíssimos felizardos, ou melhor dizendo, abençoados. Depende de quem o faz e, são poucos os que realmente tem a concepção exata do que significa isso.

    Destruir, modificar, descaracterizar, isso qualquer um faz, até mesmo os bem intencionados que acreditam que isso também é uma forma de restauração.

    Existe hoje uma confusão imensa sobre o uso inconseqüente e indevido do termo restauração. Não meus amigos, o que vemos hoje em dia como sinônimos de restauração não passa, na verdade, de uma destruição e desrespeito ao patrimônio seja ele qual for.

    Veja bem, não quero dizer que o trabalho dos falsos ou pseudos restauradores não é bom, somente deixar claro o abismo que existe entre o trabalho de um restaurador e o de um destruidor – seria este o termo mais preciso! – mesmo que não, o adotarei a partir daqui.

    O termo restauração tem a ver com a ação de recuperação, de trazer de volta o original, revitalizar, reconstruir e reconstituir elementos destruídos utilizando-se das mesmas técnicas e materiais do original sempre que possível e disponível. O cuidado com cada contorno entalhado, cada rebite corroído, amassados em metais, trincos em vidros, tecido repuxado, desbotado, a perfeita e saudável visualização dos veios da madeira e assim por diante. A busca da mesma madeira, a composição da mesma liga metálica, do mesmo verniz ou laca… Tudo é levado muito a sério pra ser rebaixado ou igualado ao trabalho de um modificador.

    Quando você tem em mãos um móvel “velho” – é estou falando daquela herança da vovó, que os herdou de sua bisavó e sabe-se lá onde esse trajeto teve início – muitas vezes não se dá conta do valor que este objeto pode ter. Não digo apenas do sentimental ou histórico para a sua família, mas também de um valor real, material, palpável e de um outro ainda que agrega valor: o histórico, de estilo, do período, do artesão que o confeccionou, dos salões por onde já esteve, da história fora da sua família, aquela que é a história da humanidade em algum determinado momento, reflete a realidade social da época.

    Este aparador italiano (+- 1400) é um típico exemplar de restauração consciente. Durante todo o processo de restauração desta peça (que pude acompanhar) foram realizadas analises dos vernizes utilizados originalmente, as partes danificadas foram corrigidas utilizando-se as próprias partes, os mármores (extintos) devidamente soldados com materiais específicos. A única parte nova é o espelho pois o original estava quebrado e não permitia restauro. Mesmo assim, foi utilizado um de cristal, conforme o original.

    É como uma obra de arte e deve ser respeitado como tal. Cada curva, friso, ângulo, elemento faz parte de um conjunto de coisas que caracterizam o móvel em um determinado estilo e período da história, que compõem a sua harmonia, perfeição. Assim como as técnicas das pinceladas, pigmentos, tecidos utilizados numa tela. Seria tragicômico ver um Botticelli restaurado tendo sido usado tinta acrílica para repor as falhas do tempo. Meu Deus, isso seria caso de internação tanto da proprietária que permitiu quanto da autora do desastre. Da mesma forma que acontece com os móveis.

    W. Benjamin define muito bem em seus escritos o que vem a ser a áura de uma obra de arte. Porém ele trata sobre questões técnicas de reproduções de obras de arte. Aquele caso da Monalisa e tantas outras obras que existem às milhares espalhadas nas casas por aí. Esta aura, no caso específico da restauração, pode ser interpretada como o todo citado no parágrafo anterior, seria algo como a vida pulsante da peça a ser restaurada:

    “O que caracteriza a autenticidade de uma coisa é tudo aquilo que ela contém e é originalmente transmissível, desde sua duração material até seu poder de testemunho histórico. Como este próprio testemunho baseia-se naquela duração, na hipótese da reprodução, onde o primeiro elemento (duração) escapa aos homens, o segundo – o testemunho histórico da coisa – fica identicamente abalado. Nada demais certamente, mas o que fica assim abalado é a própria autoridade da coisa.” (BENJAMIN, 1980, P.08)

    Depois que enfiaram a ditadura das pátinas, decapês e outras técnicas, as revistas entupidas de ambientes recheados de móveis com estas aplicações a impressão é que, até mesmo os profissionais de decoração, interiores e arquitetos perderam a noção do absurdo, do ridículo e do bom senso. Eu cansei de ver – e vejo até hoje – “profissionais” indicando uma patinazinha sobre aquele divano Luis XVI, pasmem, ORIGINAL (!!!!!!) como vi ainda há pouco num fórum de dicas de decoração. E é impressionante que não apenas uma profissional, mas vários, indicaram inúmeras técnicas para uma senhora que recebeu de herança móveis da bisavó que vieram mais de trás ainda. Será que realmente perderam a noção de bom senso ou nunca a tiveram?

    Percebam o horror desta peça onde a madeira desapareceu por completo. Toda a textura e volume da peça foi trocado por um visual chapado em um dourado que remete a um falso luxo. Isso se também não levarmos em consideração a troca do tampo (provavelmente um mármore) por este outro.

    Por favor gente, quando vocês tiverem em mãos algum objeto antigo, antes de qualquer coisa, questione seu cliente sobre a origem daquilo, a história na família, origens. Caso seja difícil, nada que um bom antiqüer não resolva com uma visita ou até mesmo uma busca pelo Google. Depois disso feito, aí sim tome a decisão sobre o que fazer com aquilo. Mas tenha bom senso, por favor. Não destrua um patrimônio.

    Caso seu cliente esteja infectado pelas idéias mirabolantes dos modismos, estude em casa para conseguir traze-lo à realidade e mostrar a ele o valor daquilo. É bem melhor convencê-lo a vender a peça para um antiquário que mandar jogar uma camada de tinta sobre. Veja bem, com o dinheiro que ele ganhará pela peça, certamente vai conseguir mandar fazer uma cópia em madeira menos nobre onde, aí sim, você pode mandar jogar o que quiser em cima sem peso na consciência e sem agredir a história.

    A diferença a que me refiro entre os dois profissionais é exatamente esta. Um restaurador cuida do objeto como se fosse um recém nascido. Cerca-o de todo cuidado e trata-o com todo o respeito que ele merece. Pesquisa profundamente inclusive as técnicas construtivas e materiais empregados na época para não incorrer em erros, para não danificar a peça e se danificar acidentalmente, sabe exatamente como reconstruí-la sem descaracterizá-la.

    Um destruidor trabalha cegamente na contramão da história. Não leva em consideração absolutamente nada a não ser o quanto ganhará pelo serviço prestado. Ele não consegue ver na sua frente nada mais que uns pedaços de madeira velha. Pode até observar:

    – Noooooooossa mas que cadeira lindaaaaaaaaaaaa!

    Porém isso não vai passar de mise en scène… Uma tentativa de ganhar o cliente, massageando o seu ego. Mas logo em seguida ele continuará com a sua ânsia destrutiva:

    – Um decapê em tons verde forrado com um shantung caramelo vai ficar bárbaroooooo!!!!!

    O detalhe não observado na cena acima é que a cadeira em questão é na verdade uma poltrona do estilo Diretório, original. Ai… Este profissional não leva em consideração absolutamente nada, não sabe de nada. Não se importa se a madeira é rara ou já extinta, os frisos suaves e entalhes delicados, as marchetarias e desenhos. Simplesmente vem com suas latas de tintas e preparados pastosos e lança camadas e mais camadas umas sobre as outras, formando aquela massa de quibe que depois de ter imprimido as cerdas do pincel ainda recebe o delicado tratamento das lixas abrasivas que darão o toque final e ele poderá dizer:

    – Aiiiiiiiiiiiiiiii!!!! Que luxooooooooooooooooo!!!!!

    Desculpem-me, mas isso pra mim é uma cena digna de caracterizar o pior dos infernos de Dante e o dito cujo, o pior dos demônios. É grotesco, pavoroso, insano. Se quiserem suavizar um pouco tudo bem, uma cena digna daqueles enlatados do cinema pastelão onde tudo, por mais ridículo e absurdo que seja, se torna engraçado e consequentemente, aceito.

    Para este tipo de coisa seja coerente como eu já escrevi acima. Caso o cliente deseje uma peça de estilo modificada em seu ambiente, não o leve a antiquários nem a lojas de móveis usados para não correr o risco de destruir um pedaço da nossa história. Hoje algumas fábricas fazem cópias exatas de qualquer móvel. Basta apresentar uma foto e, seja ele de que período da história for, eles pesquisam e você o recebe pronto para enviá-lo ao profissional que, aí sim, deixará de ser um destruidor e passará a ser um artista.

    Eu não poderia, como amante das artes, deixar de externar a minha indignação e preocupação com este assunto e as conseqüências observadas por aí no dia a dia profissional.

    Bem meus amigos, este assunto vai longe, provoca divergências e discussões acaloradas. Alguns se sentirão ofendidos e outros aliviados. Outros conseguirão entender a diferença entre os trabalhos e profissionais e outros conseguirão se manter insensíveis ao tema. Se eu consegui atingir você hoje com este texto, fazendo-o parar e analisar as situações, ou até simplesmente rir com algumas colocações, já está valendo. Já alcancei meu objetivo e minha função como educador e amante das artes.

    LD&DA Paulo Oliveira

     

  • Expressão ou Impressão? De quem é a razão?

    por Valmir Perez

    Arte – palavra de significado controverso que sugere inúmeras polêmicas e discussões. Para uns, a arte é a aptidão de aplicar habilidades e conhecimentos na materialização de idéias. Para outros, apenas uma atividade do espírito humano sem sentido prático, ou ainda o conjunto de técnicas, regras e preceitos para a realização de uma atividade criativa.

    O que significa esse termo para nós humanos que o utilizamos nas mais variadas atividades quando queremos exprimir, por exemplo, níveis e estados tecnológicos, tais como quando dizemos que o estado da arte dos aparelhos e equipamentos de cirurgia intra-uterina ainda não permitem determinadas intervenções? Ou quando dizemos que fulano de tal é um artista no que faz, ou que tal automóvel, equipamento, etc. são uma obra de arte? Nesses casos, não estamos subjetivamente sugerindo que a arte é a culminância da ciência e da técnica em determinada área do conhecimento?

    Pois, se é assim, se essa palavrinha de quatro letras significa tudo isso, não seria então óbvio supor que seu estudo se fizesse necessário desde a infância? Que se aprendêssemos suas nuances, seus mistérios e suas técnicas desde a tenra idade não estaríamos mais preparados para enfrentar o mundo, uma profissão, uma carreira? Não seríamos mais livres no pensar e no agir?

    E por que o estudo das artes na maioria das escolas brasileiras, sejam elas públicas ou particulares, é tão tímido, tão sem sal? Será que ainda não nos demos conta da importância da velha e sempre nova arte? Pois se grande parte da nossa evolução como seres humanos depende de como nossos sentidos visuais, táteis, auditivos, etc. apreendem o mundo, não estaria faltando alguma coisa em nossa educação? Em nossa formação?

    A arte, para os artistas da luz

    E para nós, que somos artistas da luz, o que significa essa palavra, esse conceito, essa coisa meio indefinida que preenche nossas vidas, atinge nosso humor alegrando nossos dias, que nos faz pensar sobre nossas existências de maneira mais profunda, que nos deixa impacientes, pensativos, lívidos, lacrimejantes e às vezes revoltados; o que ela nos diz, por que ela nos interessaria?

    Penso que se nos interessássemos pela arte e por tudo o que ela pode “significar”, provavelmente nossa razão e intuição se fortaleceriam, pois sairíamos de um estado de passividade em relação aos acontecimentos, de um sono profundo que às vezes nos deixa entorpecidos, sem reação contra os absurdos da vida e da história. Sentiríamos a vida de outra forma, com mais amplitude e profundidade. Vivemos no mundo e, na maioria das vezes, não questionamos nem como as coisas são, nem por que são e muito menos para onde vão. Uma vida voltada ao ter e muito pouco ao “ser”.

    Ao contrário do que muitos imaginam – e imaginam exatamente porque imaginam sem conhecer o que estão imaginando – o conhecimento e o envolvimento com a arte não transformam seres humanos em românticos babões. Essa visão distorcida é apenas um resquício do romantismo ingênuo que passou por aqui na época de nossos tataravôs.

    No século XIX, a elite brasileira importava cultura européia, que chegando aqui se distorcia, aportando num país que acabara de sair do status de colônia e de apenas subserviência. A arte é muito mais abrangente, muito mais elevada do que apenas versos simplórios de amor platônico, que imagens bucólicas de casinhas de fazenda e que retratos de déspotas do poder.

    Os movimentos artísticos e a evolução do pensamento humano

    A arte é uma alavanca, uma ferramenta imensa de progresso. Uma alavanca que movimenta o peso da velharia, do que está mofado, abrindo portas, inclusive para que a ciência possa entrar num ambiente mais arejado – ou alguém duvida que a liberdade que temos hoje em nosso comportamento, vestimenta, vida sexual, etc. não foi conseqüência do movimento Hyppie das décadas de 60 e 70, que surgiu impulsionado pela música, que é uma forma de expressão e arte?

    Falando sobre movimentos que balançam os espíritos e os fazem acordar de eras antigas, podemos pensar a iluminação como arte, pensar que ela também pode ser um instrumento de reflexão, assim como a arquitetura, que em determinados momentos históricos também contribuiu para que a letargia fosse dispersa, para que o mundo respirasse a acordasse em espaços novos, mais confortáveis, mais humanos.

    Para falar sobre esse assunto, penso que primeiramente seria interessante entender que os movimentos na história da arte se apresentam com características senoidais; ondas que ora batem em praias de liberdade, ora em praias de escravidão, ora caem na escuridão da inquisição medieval, ora renascem trazendo de volta valores humanos. Ora a arte é engajada, politicamente atuante, ora tímida, alienada, suntuosa por fora e vazia por dentro.

    Para dar maior embasamento, gostaria de situar os leitores num momento histórico das artes bastante decisivo, cuja relevância e reflexos sentimos até o momento. Época de grandes rupturas, em que as regras clássicas já não satisfaziam espíritos mais lúcidos. Estou falando dos movimentos que se iniciaram em fins do século XIX e início do século XX na Europa.

    Dentre esses movimentos, dois deles se destacam por nos fazer perceber que a liberdade que encontramos na arte é única, e que, mesmo aparentemente opostas em suas visões e sentidos, grandes idéias sempre se complementam. Estou falando dos movimentos impressionista e expressionista.

    Em uma rápida análise das características desses dois movimentos artísticos, podemos idealizar ao menos um pouco o que mentes e corações brilhantes desvendaram, desmitificaram e criaram para a posteridade. O que nos legaram e o que podemos fazer com esse legado para transcender por vez, o nosso tempo.

    Um de um jeito, outro de outro

    O que chamamos de Expressionismo é a arte alemã de fins do Século XIX e início do século XX. Seus dois maiores centros foram os Fauves (feras) na França e o alemão Die Brücke (a ponte). Os dois movimentos iniciaram suas atividades por volta de 1905 e acabaram por determinar a força que impulsionaria o Cubismo na França, por volta de 1908 e a corrente Der Blue Reiter (O cavaleiro azul), na Alemanha de 1911.

    A corrente expressionista na arte pictórica surge como resposta de alguns artistas de cunho mais romântico ao movimento impressionista. O Expressionismo é a antítese do Impressionismo. A expressão é um movimento que vai do interior para o exterior; no Expressionismo o artista imprime sua emoção nos objetos, na criação. Já no Impressionismo o artista se vê absorvido pelo mundo externo, os objetos se imprimem em sua consciência e, por conseguinte, em sua obra. O artista se abre para receber as impressões externas e aplicá-las em sua arte.

    Para melhor entendimento poderíamos acrescentar que, no Impressionismo, o artista se coloca numa posição passiva, de puro espectador passivo, o que sugere uma atitude mais sensitiva. Por outro lado, o artista expressionista quer deixar a sua marca no mundo, suas emoções transbordam em sua criação e os objetos ficam carregados com a sua vida interior.

    A atitude expressionista é volitiva, chega às raias da agressividade, é a imposição do artista sobre o mundo que o rodeia. Interessante notar que mesmo que o artista receba passivamente a realidade (Impressionismo) ou se coloque em choque contra ele através de reações ativas, cujo movimento é centrífugo (Expressionismo), essas duas correntes de pensamento e criação se baseiam na realidade do mundo. São correntes essencialmente realistas. A possibilidade simbolista é excluída.

    O sonho e as visões oníricas não são, de maneira alguma, objetos de atenção e discussão, nem do artista que passivamente se deixa envolver pela realidade externa e nem por aqueles que assumem a responsabilidade de influenciar o externo através de suas ações criativas. Nas palavras de ARGAN 1:

    “O Expressionismo se põe como antítese do Impressionismo, mas o pressupõe: ambos são movimentos Realistas, que exigem a dedicação total do artista à questão da realidade, mesmo que o primeiro a resolva no plano do conhecimento e o segundo no plano da ação. Excluí-se, porém, a hipótese Simbolista de uma realidade para além dos limites da experiência humana, transcendente, passível apenas de ser vislumbrada no símbolo ou imaginada no sonho. Assim se esboça daí uma arte engajada, que tende a incidir profundamente sobre a situação histórica, e uma arte de evasão, que se considera alheia e superior a história. Somente a primeira (a tendência Expressionista) coloca o problema da relação concreta com a sociedade e, portanto da comunicação; a segunda (a tendência Simbolista) o exclui, coloca-se como hermética ou subordinada à comunicação, ao conhecimento de um código (justamente o símbolo) pertencente a poucos iniciados.”

    Estudando mais especificamente a técnica e ideal dos impressionistas, percebemos que existia a busca pela captação do momento fugaz da natureza da luz sobre as formas, sobre os objetos, numa tentativa de recriar a “impressão” causada pelas luzes e reflexos captados pelos seus sentidos visuais. Pintavam diretamente sobre a tela branca, utilizando na maioria das vezes uma paleta de cores puras, através de pinceladas justapostas, criando alterações da cor percebidas como segundos e terceiros cromatismos.

    Numa tentativa de fazer um paralelo entre a pintura e uma obra de iluminação impressionistas podemos supor que o iluminador terá que observar as luzes e reflexos da luz na natureza e nos objetos e recriar suas impressões dessa luz e reflexos na tridimensionalidade, através de fontes, equipamentos, filtros etc. artificiais, mas misturando matizes, formas, alterando ângulos de incidência, intensidade, luminosa, etc. Isso, embora seja apenas uma suposição e não uma regra, pode servir como um exemplo aproximado da técnica.

    Já os expressionistas, cuja arte se deixa levar pelos reflexos instintivos, buscavam a subjetividade dramática, a explosão dos sentimentos através da deformação das formas, da utilização de cores irreais e agressivas, numa tentativa de dar “forma” aos medos, à solidão, à miséria humana, aos vícios. Em alguns casos, como o de Gauguin e algumas obras de Van Gogh, fazer transbordar a intensidade da natureza selvagem, dos instintos animais e dos povos primitivos. Na iluminação poderíamos, numa tentativa de exprimir esses ideais, usar os recursos artificiais projetando imagens distorcidas, com cores extremamente saturadas e inconvenientes, criando efeitos dramáticos e “misteriosos” através das sombras, etc.

    Esses exemplos (e eles são isso mesmo: apenas exemplos e idéias particulares) não podem ser levados ao status de regra, mas servem apenas para criar na mente do leitor imagens aproximadas desses conceitos.

    E eu com isso?

    Mas o que isso tem a ver com a gente? Que interesse têm os designers de iluminação se os expressionistas botam a boca no trombone, e através de suas criações exprimem suas emoções latentes, seja através do jogo de contraste entre luzes e sombras, cores ousadas, deformando objetos e seres, enfim, colocando pra fora os sentimentos mais profundos, a alma em movimento nas obras?

    E o que importa se, por outro lado, os impressionistas, esses cientistas da física e da cognição, esperam horas e horas até que a luz ideal encontre suas telas, misturando tintas “vivas” para enganar os olhos de quem vê o conjunto, pintando várias vezes o mesmo tema, em horas, dias, estações e anos diferentes, apenas para perceber e se impressionar com a luz?

    Podem ter certeza que temos muito a ver com isso! Em nossas obras, expressas através das intensidades das luzes, cores, sombras, das deformações sobre espaços e objetos e tudo o mais que a iluminação “fabrica” com suas intervenções, criamos mundos que sensibilizam. Idéias subjetivas que se concretizam.

    Sabendo disso, conhecendo os mecanismos, a mecânica, os princípios dessas técnicas, podemos movimentar essas forças emocionais, essas energias inteligentes, esses turbilhões de sentidos. Isso nos torna, também, responsáveis pelas interações com o nosso tempo, com a história presente e futura. Nesse caso, nossa responsabilidade aumenta, pois, podem ter certeza, não existe arte que não seja engajada, que não participe e não sobreviva de alguma crença.

    Mesmo aqueles artistas que se dizem totalmente livres, e, de forma alguma engajados, já estão aí engajados numa forma de pensar e de agir. Em algumas épocas iremos encontrar artistas que pensavam dessa forma, e que achavam que sua arte estava acima de qualquer coisa que fosse mundana. Esses artistas contribuíram enormemente para a decadência moral e ética dos povos, por simplesmente pensar que a arte está sempre acima do bem e do mal.

    Que negócio é esse de arte engajada?

    Geralmente, quando se fala sobre arte engajada, já vem à mente das pessoas a idéia de que “artista engajado” é aquele que levanta a bandeira de uma idéia política e começa a pintar cartazes de propaganda, freqüentar reuniões às escondidas e falar mal do governo, qualquer que seja ele. Não é nada disso! Isso é outro preconceito que nasceu em algum ponto atrás, na história, e faz os mais reticentes fugirem da discussão. Pior ainda, faz gente inteligente se tornar avessa à atividade de pensar seu tempo, sua história e seu futuro.

    Mas e daí? – questionarão alguns – o que é que eu posso fazer se meu trabalho como designer de iluminação é apenas criar beleza, conforto; é apenas criar luzes que irão iluminar os palcos, as exposições, as lojas e shoppings? Isso é um engano! Não criamos apenas beleza e conforto, como criamos também consciência estética, de harmonia, de respeito humano, ecológica em seu sentido mais abrangente; criamos e somos mesmo responsáveis por criar e contribuir na criação de espaços e ambientes mais humanos, de beleza estética em teatros, em espaços públicos.

    Somos também responsáveis pelos recursos que nos são colocados à disposição, principalmente quando são recursos públicos, pertencentes ao conjunto da sociedade. Somos responsáveis se nos deixarmos corromper por esse dinheiro ou se nos tornarmos os que corrompem.

    Na atualidade, onde os artistas da luz encontram o materialismo e o mercantilismo fortemente enraizados no dia a dia, acentuados pela visão do ganho pelo ganho, a pressão para um engajamento maior contra os absurdos da vida é muito vigorosa, mas não impossível de ser dissipada, pois a sutileza pode ser a nossa arma, nossa saída. A arte pode ser a saída. Nosso posicionamento ético é a melhor saída.

    Pressões sociais, econômicas, políticas sempre existiram e ainda são muitas. Artistas de verdade sempre foram aqueles que, de alguma forma, quebraram algemas. Essas algemas possuem formas diferenciadas, dependendo da época e dos lugares elas podem ser políticas, religiosas, de preconceito estético, de preconceito racial, de preconceito econômico etc. Artistas de verdade sempre souberam nesses momentos de crise avaliar a importância de seus trabalhos. Dizer “sim” e “não” com a cabeça erguida, com a consciência à frente de seu tempo, com os olhos num futuro mais grandioso.

    Impressionistas, como Monet, Renoir, Manet, Pisarro, Courbet; expressionistas, como Van Gogh, Edvard Munch, Gauguin e muitos outros, contribuíram fortemente para que hoje pudéssemos praticar a arte, qualquer arte, de forma mais livre. Esses homens, esses artistas, em suas épocas, tiveram que arrebentar as algemas que os mantinham e às sociedades, presas ao passado, aos preconceitos.

    Seria injusto afirmar que os artistas impressionistas, cujas obras estavam mais focadas em problemas visuais e cognitivos, não estavam engajados, não lutavam contra essas pressões. Da mesma forma seria também injusto afirmar que expressionistas estavam mais preocupados com seus próprios problemas emocionais do que com os de suas sociedades.

    Eram artistas engajados, que acreditavam que a arte clássica já não bastava para elevar os espíritos humanos, impulsioná-los a um futuro luminoso, mais livre. Lutaram por vezes batalhas terríveis, com perdas financeiras, familiares, passando por humilhações e muitas vezes vilipendiados por mentes contrárias à evolução dos povos.

    O artista moderno

    O engajamento do artista não está circunscrito apenas ao que ele defende como arte, mas ao que ele defende e acredita como direito à vida, à evolução, à busca de sociedades mais justas, como respeito a si mesmo. O artista contemporâneo, o artista da luz, da arquitetura, da pintura, ou seja, de qualquer arte, não deve pensar em engajamento apenas como questão de princípio ético, mas acima de tudo, e urgentemente, como questão de sobrevivência.

    Fica fácil perceber que pela nossa própria insanidade, pela nossa própria ganância, pela nossa própria preguiça e desrespeito à natureza, estamos contribuindo seriamente para a destruição do planeta. Somos uma espécie ameaçada. Nossa maior ameaça é a nossa covardia em pensar que tudo pode ser resolvido sem a nossa participação.

    Mas são nesses tempos de crise que as oportunidades de crescimento pessoal e humano são mais abundantes. Os poemas mais belos foram escritos à luz das velas, no silêncio da pobreza. As mais lindas histórias de amor acontecem em momentos de despedida e o heroísmo aflora aos sons ensurdecedores dos bombardeios aéreos.

    Artistas de verdade não se deixam intimidar pelas situações, pelos riscos. Impressionistas e expressionistas somos todos nós, basta estar vivo, atuar no mundo, acreditar que o futuro nos pertence e que não está pronto, mas sendo construído diariamente por nossas próprias escolhas.

    1 ARGAN, GIULIO C. Arte Moderna. São Paulo: Editora Schwarks Ltda, 2002. p. 229.

    Valmir Perez
    Lighting Designer
    Laboratório de Iluminação
    Unicamp
    www.iar.unicamp.br/lab/luz
    http://valmirperez.blogspot.com/
    http://imprensanaprensa.blogspot.com/

    Este texto foi originalmente publicado na Revista Lume Arquitetura n. 31 – especial de 5 anos.