Do erro conceitual.

Revista Lume Arquitetura
Coluna Luz e Design em Foco
Ed. n° 62 – 2013
“Do erro conceitual.”
By Paulo Oliveira

62
Por uma ironia do destino, minhas duas áreas de atuação estão apresentando o mesmo problema com relação ao exercício profissional: o erro na concepção equivocada por duas associações que se julgam detentoras de todas as prerrogativas sobre ele, incluindo, o de definí-lo. Isso tudo sustentado por um grave déficit democrático-deliberativo, sem transparência e qualquer lastro de legitimidade.

No caso de Interiores, temos a ABD (Associação Brasileira dos Decoradores), de caráter multiprofissional, agregando decoradores, arquitetos-decoradores e os designers. No caso do Lighting Design (LD), a AsBAI (Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação), que é uma associação corporativista, restritiva, criada e gerida por arquitetos. São associações ensimesmadas.

Importante ainda destacar que associações são entidades sem respaldo legal para determinar seja o que for, especialmente delimitar o setor através de reserva de mercado, ou ainda ditar normas para o exercício profissional. Estes papéis, especificamente, são de competência dos Conselhos Federais – ainda inexistentes nos dois casos.

Mas deixando de lado estas irregularidades e leviandades ilegais cometidas conscientemente por estas associações, vamos ao que realmente interessa: o erro de conceito sobre as áreas.

As duas associações intentam, de modo forçado, um vínculo destas áreas exclusivamente ao objeto arquitetônico. Em razão deste pensamento reducionista, os projetos e possíveis áreas de atuação profissional devem voltar-se apenas para a complementação arquitetônica, desconsiderando todas as possibilidades de atuação profissional e esquecendo-se que o profissional de LD busca solucionar problemas (função) dos usuários antes da estética ligada ao projeto de interiores ou arquitetura. Também desconsideram onde mais podemos contribuir, através de nossos conhecimentos, para a sociedade ou ainda para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do país.

Quando trabalhamos diariamente com a luz através de projetos, manipulações, ou ainda pela simples observação dela nos diversos ambientes que frequentamos, nos damos conta de que onde há luz, há espaço para a nossa intervenção.

As ruas e vida da urbe não estão ligadas exclusivamente ao objeto arquitetônico Urbanismo. Elas agregam uma complexidade sistêmica ampla de objetos que envolvem diversas áreas de saber e suas tecnologias, tais como engenharias, design, ciência política, psicologia, sociologia, antropologia, história, ecologia, linguagem, sustentabilidade, entre tantos outros com os quais podemos contribuir. Os produtos e sistemas voltados à iluminação dos meios de transporte são também objetos de nossa atuação profissional e que não são produtos da arquitetura. Os médicos dependem de produtos para iluminar adequadamente a mesa sobre a qual a equipe trabalha, para que esta consiga ter uma perfeita visualização de todo o processo. Estes produtos não foram pensados para serem meramente agregados a um objeto arquitetônico, e sim atender a uma necessidade específica da Medicina.

No caso da cênica, apesar dos eventos serem realizados dentro de objetos arquitetônicos, o foco de nosso trabalho não é a valorização deles. A luz não foi projetada para a caixa cênica, e sim para criar o clima para o artista, auxiliando-o a passar sua mensagem e trazer o público para este clima.

Como se vê nestes poucos exemplos, o pensar e o desenvolvimento de nossa área não se resumem apenas a objetos arquitetônicos. Somos criadores da luz para as necessidades de um mundo que continuamente inventamos e reinventamos, e não apenas para a arquitetura.

Ah se aqui fosse assim…

Quem dera aqui no Brasil as coisas realmente funcionassem.

A cidade de Kaohsiung – Taiwan, acaba de inaugurar o seu mais novo estádio olímpico que foi especialmente projetado e desenvolvido para os Word Games que acontecem lá agora em julho.

Com capacidade para 55.000 espectadores e um custo de 150 milhões de dólares, o estádio é uma verdadeira máquina auto-sustentável. A cobertura é composta por 8.844 painéis solares que geram 1.14 gigawatt/hora – mais que suficiente para manter todo o sistema de iluinação e segurança funcionando tranquilamente sem a necessidade de uso da energia elétrica.

Enquanto lá fora eles brindam os visitantes com mega estruturas, aqui, em terras tupiniquins, nos envergonhamos com “recauchutagens” toscas e megafaturadas. Lamentável.

Como se já não bastasse o mico – sem falar do rombo financeiro desviado – em ter uma Copa do Mundo de Futebol (ECA!) ainda tentam trazer para cá os Jogos Olímpicos. AH AH AH!

Quem teve a oportunidade de ver os “maravilhosos projetos” – segundo nosso presimente apedeuta¹³ (sic) sabe bem do que estou falando. E, impressionantemente, mais uma vez, tudo é feito na base de conchavos e acertos de bastidores.

Não há concursos para seleção de projetos – e sim apadrinhamentos.

Os orçamentos são absurdamente elevados – incondizentes com a realidade e mais impressionante ainda: sempre falta verba e temos de ver os intermináveis aditivos de contrato rolando solto…

As obras são geralmente de péssima qualidade ou, no máximo, de qualidade duvidosa.

As empreiteiras são sempre as mesmas – e todos fazem de conta que não percebem…

Enfim, os interesses escusos rolando nas barbas da população que assiste atônita à essa barbárie.

Não sou a favor da Copa aqui.

Não sou a favor das Olimpíadas aqui.

Nosso país, infelizmente, carece de muitas outras coisas bem mais importantes como saneamento básico, moradia, saúde, educação e, principalmente, EDUCAÇÃO E CONSCIÊNCIA POLÍTICA.

Obras faraônicas “pra inglês ver”?

Não gente, eles não precisam disso pois já tem muita coisa legal no país para ver e conhecer como o carnaval, o folclore brasileiro, sem contar as belezas naturais que, diga-se de passagem, são das mais belas nesse planeta. Tem também a História do Brasil que é riquíssima e produziu obras fantásticas e que, infelizmente, vemos dia a dia serem destruídas, apagando a nossa identidade.

Se eu tivesse tempo faria posts aqui no blog sobre a cultura brasileira, seu folclore e história. Ao menos meus leitores conseguiriam prender algo de útil e realmente importante sobre quem somos e porque somos brasileiros.

Não sei como anda a educação de base, mas pelo visto, o folclore deve ter sido reduzido a nada.

Promover dois eventos desse porte seguidos num país onde os parlamentares confundem design com artesanato é no mínimo ridículo para não dizer absurdo.

Fazer algo nesse sentido onde os maiores escândalos sempre acabam em pizza é carimbar na testa de todos nós cidadãos palavras como  TROUXA, PALHAÇO, IMBECIL, ZÉ MANÉ. E depois eles ainda aparecem na TV falando que “estão pouco se lixando para a opinião pública” (sic).

Não gosto muito de expor esse meu lado político pois sou bastante ácido com relação ao que vem sendo feito em nosso país e muitas pessoas não gostam, porém, tem coisas que não consigo calar-me pelo simples fato de já ter vivido varios anos dentro da política e percebido que não temos políticos e sim POLITIQUEIROS…

Fico imaginando a festa de abertura da Copa… um show de bundas carnavalescas embaladas por funk e sertambregas. Que “must”!

Melhor ainda será a participação popular, a platéia que certamente irão ser altamente respeitosa tanto na hora da compra dos ingressos – quando descobrirem que os mesmo já esgotaram – quanto no momento das partidas… aff

Lamentavelmente, nosso país não dispõe de uma administração pública eficiente para a realização de algo desse porte. Nem no antes e, muito menos no durante.

Coloco novamente: nosso país necessita de outras ações bem mais sérias que essa maquiagem maquiavélica na tentativa de mostrar ao mundo que somos um país justo e digno de primeiro mundo.

Eu não apóio a Copa…

Eu não apóio as Olimpíadas…

Quem sabe daqui ha uns 300 anos estejamos prontos para algo assim…

Eu apóio o meu país e o meu povo.