Pra não dizer que não falei…

Revista Lume Arquitetura
Coluna Luz e Design em Foco
Ed. n° 70 – 2014
“Pra não dizer que não falei…”
By Paulo Oliveira

70
…das flores,

mas não posso mais, pois, segundo o CAU, paisagismo é atribuição dos arquitetos, e as flores fazem parte desta disciplina. E não se tocaram que eu falava de um jardinzinho com flores com que resolvi presentear aquela senhorinha que acabou de perder sua família toda, para que ela tenha algum prazer no pouco tempo de vida que lhe resta.

…dos carros,

mas não posso mais, pois, segundo o CAU, mobilidade urbana é atribuição dos arquitetos e os carros fazem parte desta disciplina. E não perceberam que eu estava me referindo ao projeto de um motor office para uma ONG que trabalha com formação profissional, para que ela possa atender as comunidades mais distantes.

…das favelas,

mas não posso mais, pois, segundo o CAU, a favelização urbana não é atribuição nem responsabilidade dos arquitetos; são responsabilidade apenas dos governos. Mas não viram que eu estava fazendo um trabalho junto à comunidade sobre os acumuladores, a organização e as consequências disso sobre o bem viver e estar familiar e da população.

…das praças inutilizadas,

mas não posso mais, pois, segundo o CAU, projetos só podem ser feitos por profissionais habilitados nos termos da Lei. E não perceberam que eu estava auxiliando um grupo de moradores a pensar (brifando) sobre um espaço vazio de sua comunidade para que suas ideias pudessem chegar ao poder público e seus desejos e necessidades fossem realizados.

…do mobiliário,

mas não posso mais, pois, segundo o CAU, mobiliário é atribuição exclusiva dos arquitetos, de acordo com os cacos espalhados por trezentas disciplinas. E não perceberam que eu estava me referindo ao projeto de uma chaise, para que portadores de necessidades especiais consigam curtir os prazeres sexuais, em diversas posições, de maneira confortável e segura.

…da ergonomia,

mas não posso mais, pois, segundo o CAU, acessibilidade é atribuição dos arquitetos e os aspectos ergonômicos fazem parte desta disciplina. E não perceberam que eu estava me referindo à reorganização ergonômica de uma indústria visando à saúde, segurança e produtividade de seus empregados.

…do projeto,

mas não posso mais, pois, segundo o CAU, projeto é atribuição dos profissionais legalmente habilitados na forma da Lei. E não perceberam que eu estava me referindo ao briefing para a construção de um projeto educacional de uma creche que um grupo de empresários quer implantar próximo às suas empresas para atender a demanda de suas trabalhadoras.

…das luzes,

mas não posso mais, pois, segundo o CAU, iluminação é atribuição dos arquitetos e as luzes fazem parte desta disciplina. E não perceberam que eu estava me referindo às luzes cênicas daquela peça teatral de uma escola de periferia daqui de minha cidade, em homenagem ao dia das mães.

…“Fiat Lux!”

Aí vem o CAU dando carteirada, me enfiando uma notificação por exercício ilegal da profissão de arquiteto. E não percebeu que eu estava apenas começando a ler em voz alta a minha Bíblia em latim, em Gênesis 1:3, quando Deus diz isso.

Devaneios à parte, este é o quadro que se desenha à nossa frente: uma ditadura do CAU sobre tudo e todos. Eles agem através de dois lobbies: o primeiro, localizado no Congresso Nacional, onde se aproveitam do desconhecimento dos parlamentares sobre os assuntos e temas abordados e sapateiam na cara da sociedade e dos profissionais de outras áreas, induzindo nossos representantes ao erro, fazendo-os legislar apenas em favor dos arquitetos; o segundo é junto à mídia, onde eles conseguem anunciar o que for, mesmo que lesivo e prejudicial à sociedade, beneficiando apenas a sua classe e, propositadamente, desinformando a população.

Mas ainda dá tempo de acordar e impedir isso.

(in)Segurança.

Revista Lume Arquitetura
Coluna Luz e Design em Foco
Ed. n° 61 – 2013
“(in)Segurança.”
By Paulo Oliveira

61
Boate Kiss, janeiro de 2013. Vimos uma série de debates imediatos sobre a questão da segurança nos espaços destinados à diversão coletiva com acusações e apontamentos de falhas para todos os lados. Duas semanas depois, a impressão que tenho é que já perdeu a importância. Os debates se amornaram, a mídia não lança mais denúncias diárias, políticos não se reúnem para analisar ou melhorar as leis, e-groups de arquitetura, engenharia e design já não debatem sobre isso, mídias sociais já estão interessadas em novos assuntos.

Não podemos deixar que isso simplesmente passe e caia no esquecimento. Não podemos permitir que tudo continue como antes do trágico incêndio que ceifou a vida de mais de duzentos jovens. Esta questão é vital tanto para os usuários quanto para nós profissionais que estamos firmando e afirmando a importância da nossa profissão no mercado.

É fato que os empreendedores priorizam a visibilidade estética como forma de marketing nos estabelecimentos e, muitas vezes para redução de custos, forçam-nos a eliminar elementos relativos à segurança e acessibilidade. Mas isso não é um problema apenas desse tipo de projeto. Até nas residências isso acontece. Todo o sistema de iluminação faz parte de ambos – estética e segurança. Diante de tudo isso, qual o nosso papel e as nossas responsabilidades?

A especificação de equipamentos de marcas já consolidadas no mercado reflete padrões técnicos já testados e aprovados, logo seguros para o uso. Mas alguns empreendedores saem à busca destes equipamentos no Paraguai, onde as marcas nem sempre são originais. Geralmente, adquirem equipamentos que, muitas vezes, não se sabe a origem, tampouco o padrão de qualidade. Claro, eles buscam fugir dos altos impostos que incidem sobre os equipamentos importados ou nacionais aqui no Brasil.

Para este tipo de projeto é essencial a presença de um engenheiro eletricista na equipe (coisa rara). É ele que, através das cargas previstas nos projetos de LD (cênico+arquitetônico), som e demais partes onde exista consumo elétrico, irá prever as devidas instalações finais do ambiente, com materiais e insumos de qualidade.

Francesco Iannone disse numa entrevista a esta revista (Ed. 24) que o profissional de LD não deve projetar a parte estrutural e que isso é da alçada do engenheiro ou arquiteto. Realmente não é o nosso papel fazer isso, porém não devemos nos furtar do necessário acompanhamento e fiscalização das partes que darão suporte ao nosso projeto, cada qual em sua competência, especialmente a elétrica. No projeto de LD devemos especificar a carga total necessária para suprir a instalação fixa bem como a previsão das extras para uso e segurança e ficar em cima dos responsáveis pelos projetos de suporte para que atendam com a devida qualidade às necessidades impostas nele. Digo isso, pois é bastante comum as casas noturnas convidar DJs e bandas que, na maioria das vezes, têm suas próprias equipes de som e luz que irão, fatalmente, aumentar a carga consumida.

Outro fator que leva ao erro e risco está nas normas técnicas. O Brasil, salvo engano, é o único país no mundo onde o mínimo é aceitável, por lei, como bom. Duvida? Faça então uma pesquisa sobre os níveis mínimos aceitáveis de coliformes fecais na água que é legalmente autorizada para o seu consumo.

Qual o nosso poder de argumentação legal diante de um engenheiro ou um arquiteto que resolve agradar o cliente, satisfeito com a obediência ao padrão mínimo, independente das condições variáveis de sua implantação cortando gastos? É fácil ouvirmos, na frente do cliente, que “você nem pode assinar o projeto”.

Não temos ainda a regulamentação profissional e a consequente responsabilidade sobre os projetos. Isso não é bom para ninguém.

My Reader 6/11/2010

Bom, vou começar uma série de posts nesse estilo para compartilhar com vocês um pouco sobre o que ando lendo pela web, aqui em meu reader.

Vamos lá então?

1 – No Arch Daily, dois posts me chamaram a atenção hoje:

primeiro o TED Prize-winner JR com suas impressionantes instalações fotográficas levando beleza e, em muitos casos, humor para as ruas das cidades seja em muros, fachadas, áreas degradadas ou qualquer outro ponto. Belíssimo trabalho, merecedor do prêmio.

Depois o Tourist Stop Hardanger Fjord do Huus Og Heim Architecture. Um belíssimo exemplo de projeto para o que chamamos por aqui de Ponto de Apoio Turístico. Mas infelizmente, assim como o nome feio que recebe por aqui no Brasil, os projetos são geralmente ridículos de feios. Quem sabe um dia cheguaremos a esse nivel de projeto.

2 – Do excelente blog de minha amiga Marcia Nassrallah, um excelente post sobre casa acessível. Um post muito bem elaborado sobre como devemos pensar os projetos que realizamos. Não somente visando o hoje mas também pensando e prevendo questões futuras que poderão tornar os ambientes inviáveis. São as casas para uma vida inteira, alguns cuidados que devem ser considerados na hora de projetar.

3 – No Kuriositas um post com mais uma bela apresentação em vídeo sobre mapeamento arquitetural, trabalho de Lighting Design e Arte digital: The LightLine of Gotham.

4 – No deliciosamente machista Papo de Homem, uma cobertura excelente sobre o Salão do Automóvel, em especial um post para aqueles que assim como eu, adoram os carrões.

5 – Do sempre excelente e muito crítico Urbanismo: ainda mais negligências, um post fora do contexto do blog falando sobre as problemáticas RTs. De forma simples e curta a Mary conseguiu levantar alguns pontos fundamentais e suas consequências possíveis. O que fazer?

#pausa… sinceramente não sei pq continuo seguindo alguns blogs…. #pensandoalto

5 – Já no Born Rich – que sepois que eu li o livro A Linguagem das Coisas, passei a vê-lo como um desserviço ao Design pela futilidade de muitas coisas ali – continuo acompanhando pelos excelentes projetos de interiores de embarcações e aviões, como este aqui, realizado pela empresa International Jet Interiors de New York.

6 – No sempre excelente Brainstorm9, confesso que ri muito com esse vídeo sobre o Serra e a Dilma pós-eleições.

7 – Do ChairBlog, uma verdadeira biblioteca sobre este móvel, um post apresentando o trabalho incrível do Sebastian Brajkovic. São peças muito inusitadas que brincam com a sensação motion gerando cadeiras e poltronas muito interessantes. A impressão é de uma foto tirada movimentando o objeto, ou esticando-o, deformando-o. Não sei se são confortáveis, ergonômicas ou seguras, mas que são lindas são!

8 –  Já o Contemporist, apresenta um grupo que trabalha com paisagens urbanas: o Urban Landscape Group. Vale a pena a visita ao site deles pois tem uns projetos incríveis para áreas públicas e algumas intervenções e/ou soluções bastante interessantes como a apresentada no post para iluminação de uma via pública.

Por hoje está bom né pessoal?

Depois volto com mais news e infos pra vocês sobre o que ta rolando pelo meu reader.

Abs e um excelente final de semana!

Trens metropolitanos e inter-urbanos

Ha muito que venho observando os investimentos públicos e privados nos sistemas de transportes com trens – trem e metrô -motropolitanos e inter-urbanos.

Infelizmente não há avanços nem alterações enfáticas que visem solucionar realmente os problemas. O que vemos são um conjunto de soluções paliativas que resolvem os problemas por algum tempo, mas logo depois tudo fica como antes. Não quero entrar no entando, no “campotécnico” e “burrocrático” da coisa, prefiro ater-me ao senso estético utilizado aqui no Brasil e lá fora.

Começo pelos veículos propriamente ditos. Os metrôs e trens precisam ser realmente aquelas geringonças quadradinhas, feias, cinzas e sem graça? Porque os carros tem de ter aquela frente quadrada e reta? Porque os vagões tem de ser sempre iguais? Porque geralmente cinza/metálico? Porque os trens ainda tem de rodar sobre rodinhas provocando toda a trepidação e desconforto, solavancos que por vezes chegam a derrubar passageiros dentro dos vagões? Como vemos existem muitos porquês ainda além destes citados.

Porque não se aplicam cores, arte urbana, adesivagem, copias de arte usadas de forma educacional? Porque o carro nao pode ser mais arredondado e bonito no estilo daqueles trens que vemos no exterior? Aqui também podemos apontar incontaveis soluções que, além de embelezar, poderiam servir como fonte educativa/informativa através da exposição de arte aplicada – adesivada ou pintada – ou ainda informativa sobre eventos culturais/educativos. Não digo publicidade pois fatalmente cairíamos na poluição visual e isso vai na contramão do que pretendemos: o embelezamento urbano.

Observe o trem do trem de Metrô abaixo:

Mas este processo nao fica restrito apenas aos trens e metrôs, isso teria de ser aplicado já dentro das proprias estações. Um bom exemplo está no post Estações: Westfriedhof, Munich Germany aqui mesmo no blog.

ou então, veja o exemplo das 165 estações (!!!!) de Moscovo:

 

E agora observe as nossas:

Nossas estações e plataformas são horríveis – salvo raras e novas excessões. As bilheterias são péssimas, banheiros piores ainda, plataformas medonhas e que não contribuem com o bem estar dos usuários.

Muitos podem alegar – e até eu mesmo fui pessimista no post citado acima – que o vandalismo é o contra que impede este tipo de ação. Porém fiquei pensando sobre isso e vou concluir sobre este assunto no final deste post.

Já na parte interior dos trens e metrôs o que vemos é uma repetição de erros comuns, esteticamente falando. As empresas responsaveis parecem não se importar nem com a estética e nem com o bem estar dos usuários. O que vale é quanto mais usuários caberão nos vagões. O que vemos dentro dos trens são sempre as mesmas poltronas/bancos, o mesmo tipo de informação visual – por vezes confusas, uma total e absoluta frieza e dureza estética, entre vários outros fatores que podemos observar facilmente andando em qualquer um dos trens.

Os equipamentos internos geralmente são comuns, simples. As cores idem e repetem-se à exaustão. Os sistemas de segurança confusos e incompletos. Há muito o que se fazer para melhorar o sistema de transporte por trens aqui no Brasil.

Ao olharmos para os interiores dos vagões, a primeira sensação que temos é a de frieza, impessoalidade. Eu sempre que entro num trem ou metrô me remeto a cenas de filmes como Blade Runner onde o que importa são as máquinas e não o ser humano. É desconfortável.

O Metrô do RJ parece que está querendo mudar um pouco isso, mas ainda está longe de ser o ideal:

Apesar da mudança estética, mantem-se a máxima: maior número de usuários por cm².

Isso sem contar na absoluta falta de educação da maioria dos usuários. São jovens sentados em bancos destinados a idosos e ocupando espaços destinados a portadores de deficiências, um empurra empurra danado, riscos de assaltos entre vários outros fatores humanos.

Dentro de nossa área, Design de Interiores e Ambientes, podemos trabalhar em qualquer uma das citadas acima. Na verdade, esse todo exposto faz parte de um projeto global de melhorias que podem sim ser projetados por um Designer. Alguns pontos que podemos implantar visando a melhoria:

Nas estações:

Interiores: mais leves e humanizados, menos cinza-concreto, menos quadrados.

Iluminação: mais eficiente, menos ofuscante ou ausente.

Equipamentos: bancos, lixeiras, painéis informativos, catracas, segurança, etc.

Embelezamento: aplicação de arte, literatura, musica, exposições itinerantes, propor uma mudança radical nos projetos arquitetônicos e de engenharia visando a melhoria estética dos espaços.

Bilheterias: mais funcionais e esteticamente degustáveis. 

Segurança: implantação de sistemas de monitoramento remoto por câmeras, detectores de metais e outros, etc.

Ainda existem várias outras ações que podemos implantar, é só observar.

Nos carros:

Gráfico: implantação de projetos gráficos que valorizem as artes, a literatura, a educação excluindo contrapondo com as linhas sempre retas e repetitivas dos vagões.

Cores: aplicação de cores nos vagões como forma de suavizar  a frieza do metal.

Modelos: propor novos modelos com formas mais suaves ou utilizar os modelos já existentes no mercado exterior.

Intervenções: ampliando janelas para melhorar a visão para o externo quando em áreas não subterrâneas, tetos panorâmicos entre outros. Incluem-se aqui ações voltadas a reduzir o atrito, solavancos, barulho, etc.

Nos vagões:

Poltronas mais confortáveis e em maior número, mesmo que isso signifique menor numero de passageiros por vagão. Fala sério, as empresas faturam e muito bem com a quantidade de usuários. Poderiam investir numa maior quantidade de carros tranquilamente.

Beleza estética e nos materiais utilizados dentro dos vagões, nos acabamentos. Mais cor e alegria para os usuários que são trabalhadores e merecem um minimo que seja de conforto.

Cultura tomando o lugar da publicidade. Arte, literatura, música, etc podem tranquilamente servir de ferramentas pró-educação. Ao contrário da publicidade que só polui.

Acústica: quem não se estressa ou irrita com aquele barulho infernal?

Equipamentos como as barras e ganchos de segurança (pegada) mais ergonômicos.

Iluminação: menos fria e dura, uma iluminação que contribua para o embelezamento interno e o conforto dos usuários.

Segurança: implantação de sistemas de monitoramento remoto por câmeras. Com isso, fica fácil a identificação por imagem de vândalos e marginais. 

Como se vê, existem várias intervenções que podemos realizar nos trens e metrôs com a finalidade de melhorar a qualidade dos serviços prestados e ao mesmo tempo, trazer uma qualidade e bem estar aos usuários.

Sei que podem parecer utópicos alguns pontos, porém temos de analisar estes por outro lado: gestão pública.

A culpa deste sistema ruim que temos vem das péssimas administrações publicas anteriores e atuais. Sabemos que no Brasil há muita corrupção, verbas publicas são desviadas e embolsadas por alguns, os projetos são mega-faturados entre varias outras coisas. É exatamente aqui que está o  ponto X de toda esta problemática.

Se tivéssemos políticos realmente preocupados com um projeto de cidade, de estado, de país e não com projetos pessoais, partidários e de coleguismos certamente o nosso país seria muito melhor e estaríamos já ha bastante tempo no primeiro mundo.

De acordo com o Dr. Bianco Zamora Garcia, prof. de Ética do Mestrado de Direito da UEL, estas questões envolvem políticas publicas que orientam a gestão da cidade na sua totalidade. Entretanto, as políticas públicas se apresentam como reféns da sazonalidade de governos mais preocupados com sua visibilidade do que com a cidade. Enquanto as políticas públicas se constituírem estratégias de governabilidade (e reduzidas a elas), nada podemos esperar sobre implemento de ações efetivas e de impacto duradouro. Para estabilidade e eficácia das políticas públicas, inclusive aquelas que envolvem a gestão da cidade, importa que estas se tornem políticas estratégicas  de Estado, elaboradas de modo efetivamente democrático pela sociedade (esfera pública), cabendo aos sucessivos governos apenas a sua execução sob controle social das instituições organizadas em conselhos representativos, de caráter público.

Portanto, a defesa do patrimônio público e, consequentemente, de todas estas alterações possíveis cabe única e exclusivamente à administração pública. É ela que terá de, por exemplo, aumentar o efetivo policial nas estações reprimindo, assim, a ação de vândalos que depredam o patrimônio público, bem como atuar firmemente na educação para formar cidadãos conscientes de que, da porta da sua casa pra fora, o mundo não é “a casa da mãe Joana” onde se pode fazer o que quiser.

E cabe a nós Designers – e a qualquer outro profissional – termos consciência de que além de profissionais, somos antes de tudo cidadãos e que temos o dever de cobrar das administrações públicas que estas e outras ações sejam implantadas.

Design Inclusivo em 2 vols. online

Está disponível para consulta e download a publicação sobre Design Inclusivo – ‘A realidade deixa muito espaço à imaginação’- em dois volumes:

> Vol. I ‘Design Inclusivo. Acessibilidade e Usabilidade em Produtos, Serviços e Ambientes’ da autoria de Jorge Falcato Simões, arquitecto da Câmara Municipal de Lisboa, e Renato Bispo, designer e professor na ESAD Caldas da Rainha, ambos especialistas nesta área (download Vol 1. PDF);

> Vol. II ‘Experiências de Ensino do Design Inclusivo em Portugal’, da autoria do Centro Português de Design (download Vol 2. PDF),

Esta publicação foi editada pelo CPD no âmbito de Projecto Equal.designers – design inclusivo – Manual de Design Inclusivo.

Sugado: O Design e a Ergonomia

Planeje seu Espaço Profissional

A maioria das pessoas passa cerca de um terço de suas vidas trabalhando e poucas são aquelas que têm consciência do quanto é importante que o ambiente de trabalho possua algumas características que podem ser determinantes para a sua saúde. A configuração do ambiente pode afetar diretamente o bem-estar tanto físico quanto emocional das pessoas, determinando até o seu desempenho profissional. São vários os fatores que influenciam a qualidade do ambiente e eles devem ser levados em consideração no momento de escolher o lugar onde se pretende permanecer por um período tão longo de tempo.

O planejamento do local de trabalho deve contemplar uma boa iluminação, ambiente arejado, espaço suficiente para que a circulação ocorra sem dificuldades, ausência de odores fortes, baixo nível de ruídos, temperatura agradável, além de condições de segurança. Estes são itens básicos para se começar a criar um ambiente favorável ao bom desempenho no trabalho.

Também é importante que o mobiliário e os equipamentos atendam adequadamente às necessidades de cada tipo de trabalho e sejam ergonomicamente projetados, oferecendo conforto, de modo a proporcionar uma boa postura e mobilidade ao longo do dia. A beleza visual, por sua vez, ajuda a proporcionar a sensação de bem-estar que se espera sentir num local onde se permanece tantas horas durante o dia. O local de trabalho deve ser pensado como um sistema cujos elementos se inter-relacionam de tal modo a produzir o equilíbrio do todo.

É preciso atentar, também, para as cores que serão utilizadas porque nosso sistema nervoso reage a elas, afetando diretamente o humor. Escolhe-se a cor mais adequada a cada ambiente em função da resposta que se deseja provocar nas pessoas em termos de comportamento. Não é por acaso que os projetistas das grandes redes de lanchonetes escolhem o amarelo, o laranja e o vermelho. Eles sabem que essas cores são estimulantes e produzem o efeito de ativar a impulsividade. O resultado é que os indivíduos tornam-se mais propensos a reagir compulsivamente ao produto que estiver sendo oferecido ali. Em outras palavras, a comprar.

Por outro lado, os funcionários que permanecem o dia todo expostos a um ambiente carregado de cores vivas, têm seus centros nervosos continuamente excitados. O resultado é negativo para sua saúde porque provoca irritabilidade, estresse e apatia, além de outras consequências.

Em vista disso, deve-se optar por tons que tendem à neutralidade, por não interferirem tanto no humor. Tons suaves do lilás, verde, azul, rosa e laranja-claro podem ser usados porque, além de alegres, são aconchegantes. O verde claro tem efeito calmante e é altamente recomendado para ambientes terapêuticos, como hospitais e clínicas. Já o cinza, o preto e o marrom escuros tendem a provocar um efeito depressivo e devem, portanto, ser evitados.

O branco vai bem com qualquer ambiente e possui a vibração de todas as cores. Ele ilumina e amplia o ambiente, mas, em excesso, tende a produzir efeito desestimulante, entediante. As cores mais fortes e impactantes devem ser reservadas para pequenas áreas ou para os acessórios, complementando a decoração com um pequeno toque de contraste, nunca nas paredes, piso ou teto.

Quando o conjunto dos elementos com os quais interagimos cotidianamente é adequado, desenvolvemos uma predisposição positiva para trabalhar e isto se reflete na produtividade. O processo que gera essa predisposição, embora inconsciente, é o responsável pela fácil fluidez no desempenho das tarefas no dia-a-dia. Isso ocorre porque, num ambiente favorável, não desperdiçamos nossa energia para destacar dificuldades, reclamando de condições insatisfatórias.

Situações de baixa interferência externa negativa fazem com que toda a energia disponível seja canalizada para a atividade na qual se está concentrando. Condições favoráveis de trabalho levam o indivíduo a tornar-se o único responsável pelo seu desempenho. Ele não é alimentado com nenhum argumento que justifique uma má performance, de modo que fica desimpedido, livre para dar o melhor de si. Se estiver se sentindo devidamente aparelhado para realizar um bom trabalho, ele buscará em si mesmo as razões de suas falhas ou fracassos, quando – e se – ocorrerem.

Um bom desempenho no trabalho interessa a ambos, empregado e empregador. A este pelas razões óbvias, relacionadas a lucro; àquele, pelo aumento de sua auto-estima, conseqüência do sentimento de auto-gratificação, além do reconhecimento externo.

Há, evidentemente, muitos outros fatores que exercem influência importante sobre o sentimento de bem-estar, de satisfação pessoal e, por conseqüência, em produtividade no trabalho e não devem de forma alguma ser desconsiderados. O aspecto físico do ambiente de trabalho, porém, precisa ser elevado à categoria de elemento determinante do humor e pré-disposição. E, embora seja verdade que quase todo mundo prefere trabalhar num lugar bonito e bem decorado, isso só não basta: a adequação dessa estética às necessidades das pessoas que ali permanecerão tem que estar em primeiro lugar.

A falta de planejamento e o descuido com o ambiente de trabalho podem gerar conseqüências nefastas sobre a vida das pessoas, porque, ao desprazer, se associa diretamente a desmotivação, abrindo um perigoso caminho para o estado depressivo, que hoje é responsável por um número enorme de afastamentos do trabalho.

Também outras patologias estão diretamente ligadas à falta de planejamento e ao uso inadequado de equipamentos, como é o caso da DORT – Disfunção Osteomolecular Relacionada ao Trabalho, mais popularmente conhecida como LER, cuja principal causa é o esforço repetitivo associado às más condições de trabalho, como postura inadequada, excesso de horas numa mesma posição, fadiga mental e/ou muscular e estresse.

Artigo elaborado a partir de entrevista concedida pela autora à Revista Espaços Profissionais, Editora Online, que originou a matéria especial intitulada “Motivação: Item Fundamental”. A íntegra da entrevista foi publicada na revista Espaços Profissionais, Ano 2 – n? 6

Mariuza Pregnolato Tanouye é psicóloga clínica com especialidade em Psicologia Analítica e Terapia Corporal. Escreve crônicas, artigos e trabalhos científicos, ministra palestras e cursos. Atende em seu consultório à Av. Paulista 1159, conj. 1512 e pode ser contatada pelo telefone 11 – 3253 0384. E-mail: mptanouye@hotmail.com
Fonte – Artigos.com

Design de Interiores: transportes

Já fazia algum tempo que eu vinha querendo escrever sobre isso mas com a correria do dia a dia sempre acabava deixando pra depois. No entanto, em um debate com o Foster num outro blog o assunto acabou por ficar mais importante e tomar forma.

Falo sobre áreas de atuação em que o Designer de Interiores/Ambientes pode atuar e que a maioria não faz a menor idéia da existência das mesmas. Interiores de meios de transportes.

No começo do ano quando estive no litoral de São Paulo conheci uma designer que trabalha exclusivamente com interiores de embarcações. Ela começou a me falar sobre o trabalho e garanto: é encantador ao mesmo tempo que é um desafio dos grandes.

Deixando de lado a questão financeira envolvida (que é o sonho de qualquer designer) pensemos na parte técnica envolvida. Um iate ou um transatlântico são meios de transporte que necessitam sim de projetos muito específicos especialmente pelas pequenas dimensões dos ambientes. Isso também ocorre com outros segmentos: aviação, carros, ônibus, trens, metrôs, caminhões enfim, muitas possibilidades de atuação.

Dentro desta área voltada para o transporte, o trabalho do designer de interiores vai ter muita base no desenvolvimento de mobiliário e equipamentos específicos. Ergonomia e acessibilidade serão sempre elementos primordiais neste trabalho. E, claro, não podemos deixar de levar em consideração as outras normas técnicas envolvidas, especialmente as sobre segurança.

Pensemos em um avião com rotas internacionais. O usuário permanece por horas dentro do mesmo, confinado em um espaço consideravelmente pequeno. Alguns aviões de grandes empresas dispõe de espaços alternativos (salas de estar, bar, etc) para aqueles que desejam. Porém, temos de pensar que existem usuários que por vários motivos irão permanecer a viagem toda em suas poltronas seja por não gostar de voar, seja por ter tomado algum remédio para dormir para que aquela tormenta que é a viagem passe logo. Com tudo isso, temos de pensar na melhor forma de oferecer ao usuário ambientes e equipamentos o mais confortáveis possível.

Não devemos nos esquecer que existem normas específicas sobre iluminação para interiores em aviões e também que, quando fazemos um projeto deste, temos de pensar também no conforto da tripulação, seja lá na cabine de comando, seja em tudo que diz respeito ao trabalho e bem estar dos comissários de bordo (área de trabalho, equipamentos de trabalho, áreas de descanso, etc).

Os elementos citados acima devem ser considerados também no caso de projetos para interiores de embarcações, especialmente nas cabines que são espaços bastante reduzidos. Já em outros espaços, bem mais amplos fica mais fácil trabalhar, porém, atenção redobrada nas normas técnicas e de segurança. Lembre-se sempre de onde os usuários estarão no caso de um acidente: no mar. Portanto além de rotas de fuga limpas, devemos pensar na comunicação visual, iluminação de emergência, equipamentos de segurança e mais um monte de coisas. Nunca somente na beleza e conforto.

Em interiores de transportes terrestres (à excessão dos trens) o trabalho já é bem diferente e resume-se especialmente à concepção de equipamentos que venham a solucionar a falta de espaço interno. Seja num carro ou num caminhão sempre teremos espaços pequenos tendo de ao menos, aparentar ser grande ou maior do que é de fato. Com isso, a ergonomia é uma constante neste tipo de projeto.

Podem questionar o porque de eu ter colocado os caminhões neste meio: já ha bastante tempo as montadoras vem pensando no conforto e bem estar dos caminhoneiros. Lembrem-se sempre que a maioria deles dormem dentro das cabines, cozinham do lado de fora enfim, vivem um vida dentro e junto de seu caminhão.

Nos ônibus o trabalho não é diferente e também importante. Lembre-se sempre que existem grupos que fazem longas viagens de ônibus por ser mais barato que de avião. Também existem aqueles ônibus de grupos musicais, teatro e outros que sempre sofrem alterações internas de modo a tornar os ambientes mais agradáveis e compatíveis com as necessidades dos usários. Não posso deixar de citar também o trabalho junto aos motorhome (aquelas “casas ambulantes”) e trailers.

Também os ônibus urbanos e metropolitanos merecem atenção. No entanto vemos pouquíssimas alterações dentro ds mesmos. O básico e comum a todos seria uma visão como esta:

São pontos a se pensar: como podemos trabalhar para melhorar este tipo de transporte com o nosso trabalho?

Ainda na área terrestre temos os interiores automotivos. Os carros estão sofrendo alterações constantes sempre na intenção de melhorar o conforto, a segurança e praticidade para o usuário. Muitas destas alterações são feitas pelos fabricantes porém a maioria está vindo do pessoal que trabalha com tunning. Pra quem ainda não sabe, tunning é aquele trabalho de personalização dos carros tanto externa quanto interna.  O programa Lata Velha do Caldeirão do Huck é um bom exemplo deste trabalho. É o tipo de projeto que vai exigir muito conhecimento técnico do designer seja em equipamentos, em materiais, em estilo e conceito.

Indo para os trilhos temos: trens e metrôs. Infelizmente aqui no Brasil, não sei se por corporativismos, poucas são as cidades que ainda contam com transporte através de trens seja municipal ou intermunicipal. Lembro-me saudoso de minha infância quando cruzava as paisagens embalado pelo suave balanço dos trilhos. Nos trens temos de pensar que o usuário – à excessão dos trens bala – permanecerá um tempo considerável no transporte. Por isso é comum vermos vagões específicos: vagão restaurante, vagão bar, vagão dormitório, enfim… Já nos trens bala,  temos uma situação parecida com a dos aviões: espaço relativamente pequeno. Mas também pensemos que estas viagens são muito rápidas então, podemos ser menos rudes no trato com espaços. Mas também não podemos nos esquecer de pensar nos que trabalham ali assim como nos avões: pilotos, pessoal de bordo.

Já nos metrôs encontramos uma situação semelhante à dos ônibus urbanos e metropolitanos: grande quantidade de usuários. Portanto devemos pensar sempre na comodidade e conforto destes. Por isso não podemos deixar de observar questões de ergonomia, acessibilidade e também segurança.

Bom, se formos analisar bem, mercado de trabalho nesta área é o que não falta.

Esta é uma área que é deixada de lado na maioria dos cursos de Design de Interiores talvez por desconhecimentos dos próprios alunos, talvez por desconhecimento das próprias IES e talvez porque a maioria dos professores destes cursos vem da área de arquitetura e não do Design. Porém, pelo nome do curso sendo Design de Interiores, todos podem sim exigir que sejam repassadas informações e conteúdos sobre esta área em seus cursos.

Também vale a pena repensar as Matrizes Curriculares dos cursos existente no sentido de acrescentar ou trabalhar de forma mais aprofundada este segmento dentro dos mesmos.

Saudações luminosas a todos!!!